O Conto dos Animais do Presépio: A CRIAÇÃO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
Nesta 1ª parte do conto, Deus cria o burro, a vaca, as ovelhas e os cordeiros, dando a cada um as faculdades necessárias para desempenharem bem as suas missões. Estes animais do presépio são "figura de gente", porque representam as pessoas cujas qualidades vemos neles retratadas.
Meu nome é Valdomiro. Na minha terra, é muito comum que os nomes sejam iguais aos dos pais ou dos avós, ou ainda que sejam uma combinação de partes dos nomes de parentes próximos. No meu caso, é a união da parte final do nome do meu avô materno, Os-valdo, com a do meu avô paterno, Arge-miro. Mas ninguém me chama pelo nome; na família materna, sou Valdo; na paterna, Miro. E com o passar do tempo já me acostumei a ser chamado das duas formas.
Hoje, vieram-me umas boas recordações dos quinze Natais que passei em Pouso Alto. Cada Natal era aguardado com ansiedade. Era a época para rever os meus mais de cinqüenta primos que vinham de todas as partes do Brasil para festejar o aniversário da nossa avó: a vó Zuza.
Não se pense que a nossa avó se chamava Zuza. Seu nome era muito bonito: por ter nascido no dia de Natal, os meus bisavós deram-lhe o nome de Maria de Jesus. Mas, com o passar do tempo, o seu nome foi-se transformando: Maria de Jesus passou a ser apenas "de Jesus", Jesusinha, Zuzinha,... até se tornar simplesmente Zuza.
A vó Zuza tinha muitas qualidades, entre as quais a paciência - muito necessária para educar os seus treze filhos - e a doçura de temperamento e de cozinha. Explico-me: fazia uns doces de abóbora com coco como nunca comi outros iguais; os seus bolos de laranja e a goiabada caseira também eram imbatíveis. Mas a qualidade que mais me impressionava era a de ser uma excelente contadora de "causos", como se diz em Minas, talvez a melhor entre todas as contadoras da cidade de Pouso Alto.
Dos Natais que passei com a vó Zuza, houve um mais significativo, pois ela contou-me a mais bela história que escutei na vida: a dos animais do presépio, desvendando-me alguns dos seus principais segredos.
Ela tinha montado o presépio na sua ampla sala de estar. Compunha-se de treze figuras humanas, além das da Sagrada Família, que fora comprando aos poucos: a cada filho que nascia, vó Zuza adquiria uma imagem representando o mais novo membro da família. Quando lhe perguntávamos onde é que estavam ela e o avô, apontava, sem dizer nenhuma palavra, mas com uma cara de "levada", para um casal de pombinhos que tinha colocado na janela da casinha do presépio. Nós apenas ríamos.
Também havia ali as tradicionais figuras de animais: um burro, uma vaquinha leiteira e algumas ovelhinhas.
Na ocasião a que me refiro, eu tinha uns quinze anos; estava observando o presépio quando, sem que eu o percebesse, a vó Zuza se aproximou de mansinho e me perguntou:
- Miro, o que você está pensando?
- Vó Zuza, estava pensando por que a senhora colocou um burro, uma vaca e algumas ovelhinhas dentro da casinha do presépio, tão perto de Jesus, Maria e José. Esses animais até estão mais perto do Menino Jesus do que os homens!
Ela começou a dizer, da maneira como sempre principiava os seus "causos":
- Essa é uma longa história, mas, se tiver tempo, posso contá-la a você...
Sempre tínhamos tempo para ouvir as suas incríveis histórias. Mas, para ouvi-las, tínhamos que "entrar no jogo": agir como se acreditássemos em tudo o que contava e aceitar ser tratados algumas vezes como crianças, já que, para a vó Zuza, com os seus setenta anos, não passávamos mesmo disso. Se começássemos a duvidar do que dizia, a história não chegava ao fim: a vó Zuza interrompia-a com alguma desculpa amável. Eu, em plena adolescência, tinha que me esforçar muito para não ser "do contra" e aceitar ser tratado como criança. Mas valia a pena o esforço, pois gostava muito das suas histórias. Por sua vez, a vó Zuza gostava da nossa participação, de que fizéssemos perguntas inteligentes e que exigissem dela respostas rápidas e criativas.
- Tudo começou com a criação do mundo, disse ela, já iniciando a sério o "causo".
Nesse momento, pensei: "Xiii... Desta vez a história vai longe!..."
A CRIAÇÃO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
No sexto dia da Criação, Deus criou os animais terrestres.
Nos dias anteriores, já tinha criado os céus com os seus astros: o sol, a terra e a lua, e com eles o dia e a noite; tinha criado também a terra firme e o mar. Já havia enchido a terra de belas plantas, árvores de frutos saborosos e flores exuberantes; e os rios e o mar de peixes de todas as cores e tamanhos, e de todo o tipo de plantas e animais marinhos.
Na manhã do sexto dia, Deus disse: "Voem as aves sobre a terra, nos céus. E a terra se encha de seres vivos: animais domésticos, répteis e animais selvagens". E assim foi criada a maioria dos animais.
Mas Deus pensou: "Ainda faltam os principais animais, aqueles que terão uma missão especial a desempenhar no meu presépio. Faltam ainda o burro, a vaca, o cordeiro e o homem".
A criação do burro
E pegando um pouco de lama de cor marrom escura, Deus modelou o burro, que manteve na pele a cor da lama da qual fora moldado.
E Deus deixou o burro escorrendo. Quando já tinha escorrido boa parte da água, a lama ganhou consistência e o burro passou a ser um ser vivente.
E Deus disse-lhe:
- Tu, burro, serás um ser que não se pertence, que não trabalha em benefício próprio, mas em benefício dos outros e, principalmente, a meu serviço. A tua alegria e felicidade estarão em servir.
Serás um animal de carga: levarás no teu lombo desde as cargas mais simples, como os feixes de lenha, sacos de cereais e grãos, até valiosos carregamentos de pedras preciosas. Mas não farás caso da qualidade da carga: porás o mesmo empenho e diligência em levar com cuidado qualquer peso que venham a colocar sobre o lombo. Por isso, serás o gozo e o descanso do teu amo.
Terás orelhas grandes para ouvir bem a voz do teu amo, que te guiará em cada passo do teu caminho.
Em muitos lugares de seca ou de poucos rios, serás atrelado a uma nora, e com a força do teu trabalho, dando voltas à nora e fazendo-a girar, bombearás a água do poço para os pomares, para as hortas, para os jardins e para os reservatórios de água. Pelo teu trabalho, haverá folhagens verdejantes nos bosques, verduras nas hortas, flores das mais variadas cores nos jardins, frutas doces e saborosas nos ramos das árvores e água limpa e cristalina para matar a sede dos outros animais.
Não te esqueças disto, pois quando estiveres girando a nora não verás os frutos do teu trabalho. Trabalharás todos os dias da tua vida com a mesma pressão dos arreios, percorrerás o mesmo trajeto circular, dia após dia, semana após semana, ano após ano. Mas nunca deixes de ouvir a canção da água, que rega as plantas e sacia a sede dos animais.
- Vó Zuza, posso interromper?
- Claro.
- Sabe que eu nunca vi uma nora? É claro que deu para entender que é uma espécie de bomba que é movida pela força do burro, assim como alguns moinhos são movidos pela força da água. Mas de onde a senhora "tirou" essa nora?
- Miro, não fui eu que "tirei" a nora de lugar algum. Deus é que falou dela ao burro que acabava de criar. Para dizer a verdade, eu também nunca vi nenhuma. Minha avó, que veio de Portugal, era quem me contava histórias do burro de nora. Mas não sei se ela viu uma nora ou não, ou se alguém lhe falou dela. Isso eu nunca lhe perguntei. De qualquer forma, Deus, ao criar o burro, não pensou apenas nos burros da nossa terra, que não impulsionam nora alguma, mas nos burros de todo o mundo.
- Desculpe-me tê-la interrompido.
Deus continuou a dizer ao burro:
- Não ficarás sem prêmio. Se algum dia, ao voltares ao estábulo para receber a tua ração pelo teu trabalho, e o teu dono, por ingratidão, se esquecer de ti, tem a certeza de que eu nunca me esquecerei. Enviarei ao teu estábulo um dos meus anjos com as mãos cheias de torrões de açúcar para retribuir tudo o que fizeste por mim.
O burro nem tinha começado a mexer-se e já se sentia muito bem pago! Mas Deus continuou a falar-lhe:
- Devo ainda profetizar que servirás de montaria às pessoas mais importantes do mundo. E o mais essencial de tudo, o que dará sentido pleno à tua vida: um dia, um dos teus descendentes estará dentro do presépio de Belém.
- Vó Zuza, mas será que Deus falou com o burro como se ele fosse um ser inteligente, que pudesse entender?
- Não se fazem mais netos como antigamente! Miro, é claro que, se Deus falou com o burro, é porque lhe deu a capacidade de entender; senão, não falaria!
- Esse burro parece mais gente que muita gente, pois ouve e entende a Deus.
- Isso é verdade. Mas, meu neto, deixe-me explicar bem as coisas para que você não as confunda. Burro é burro, gente é gente, mas Deus quis que o burro fosse figura de gente.
- Francamente, não entendi! É claro que o burro é figura do presépio, mas que seja figura de gente, isso não dá para entender!
- Pois aí está um dos segredos do presépio. Meu bem, você perguntou-me por que as figuras do burro, do boi e das ovelhas estavam mais perto da Sagrada Família do que as dos homens. Entre outros motivos, porque representam pessoas, mas não quaisquer pessoas, e sim as que têm as qualidades que vemos retratadas nos animais do presépio. Você nunca leu nos salmos que "Deus salvará os homens e os burros"? Isso significa que irão para o céu as pessoas que se tiverem identificado com o burro.
- Vó Zuza, quais são então as qualidades do burro que essas pessoas viveram?
- Miro, isso não se pergunta! Isso se deduz da própria história da criação desse animal!
Os burros representam todas aquelas pessoas que têm uma profunda sabedoria de vida. Elas sabem e experimentam que só encontramos a alegria e a felicidade quando vivemos para servir as pessoas que Deus colocou ao nosso lado. São figuras das pessoas de alma mais delicada e fina, que consideram um privilégio poderem servir a Deus e aos outros.
São burrinhos de Deus tantos pais e mães que vivem em função dos filhos, procurando dar-lhes toda a atenção, garantindo o seu sustento e cuidando de cada um deles. O burrinho do presépio também representa os filhos que não contabilizam os serviços que prestam em casa, e não se queixam das pequenas tarefas que lhes são confiadas, transformando-as em manifestação de amor e agradecimento aos seus pais.
São burrinhos de Deus, que estão muito perto do Menino Jesus, as pessoas que sempre se adiantam a realizar pequenos serviços caseiros: trocar uma lâmpada que se queimou, abrir a porta quando ouvem a campainha da casa soar, limpar as manchas de café ou refrigerante que alguém derramou, regar uma planta que está secando... E de preferência tudo isso ocultamente, sem chamar a atenção para si mesmas.
- Isso não é nenhuma indireta para mim, né?
- É claro que não! Você sabe que sempre fui muito franca e direta.
Mas continuemos: a imagem do burrinho do presépio também simboliza os verdadeiros amigos que sabem valorizar os outros, preparando alguma lembrança personalizada para o dia do seu aniversário, que se lembram de separar um artigo em uma revista ou jornal que interessa a um colega, que se colocam à disposição para acompanhar um amigo em um plano que deseja fazer...
- Como o mundo seria melhor se houvesse mais burrinhos de Deus espalhados por aí!
- Sem dúvida! Mas comecemos a melhorar o mundo sendo nós mesmos burrinhos de Deus.
- E a parte da história que fala do burrinho de nora? A senhora ainda não comentou nada sobre ela!
- Vejo que você está atento à história da criação dos animais! Que bom! Mas é claro que eu não ia deixar escapar o burrico de nora nem o burrinho de carga.
- Já estava esquecendo que Deus criou o burro como animal de carga!
- Miro, o burro de carga é figura de todas as pessoas que não tiram o ombro, que não fogem da carga que Deus lhes confia. Para essas pessoas, não importa a qualidade que os outros atribuem à carga que levam, pois sabem que o que importa na vida é levar a carga que Deus colocou nos seus ombros, seja qual for. Para Deus, o valor da carga não depende tanto do preço que os homens pagam por ela, mas do amor com que o burrinho a carrega.
Já o burrinho de nora é figura de todas as pessoas que realizam um trabalho repetitivo, que poderia até tornar-se monótono por ser sempre o mesmo. Mas não é assim, pois essas pessoas sabem renovar o seu amor a cada dia. Quando o amor é renovado, já não há rotina nem falta de motivação, e evita-se o cansaço espiritual, embora possa existir o cansaço físico. Os trabalhos repetitivos tornam-se então pequenos rituais de amor em que se procura fazer tudo cada vez com mais carinho e perfeição. E onde haveria terra árida se não houvesse o burrinho de nora, há agora um lugar agradável, de repouso e descanso, um remanso de felicidade.
- Vó Zuza, agora entendo por que a senhora quis colocar a figura do burro tão perto da Sagrada Família. Eu faria o mesmo se soubesse de tudo isso.
A criação da vaca
Para modelar a vaca, Deus tomou areia do mar. Aproveitou cada onda que vinha dar na praia para molhar a areia e ir modelando a sua escultura. Quando a terminou, iluminou-a com uma luz quente e potente. Mal a luz chegou aos olhos da vaca-de-areia, eles se abriram e a vaca tornou-se um ser vivente.
E Deus disse à vaca:
- Tu serás um ser que alimenta, além das suas crias, muitos outros animais.
Saciarás a sede deles com o teu leite abundante, fresco e cremoso. Serás a alegria de Minas Gerais, pois fornecerás a matéria prima para os diversos e saborosos queijos que serão servidos nas suas mesas fartas. Saciarás a fome de muitos com esse alimento saudável e gostoso.
Graças ao teu leite e aos seus derivados, fortalecerás os ossos das pessoas, para que elas tenham uma estrutura sólida e possam agüentar o peso que venha a recair sobre elas.
Muitas vidas serão adoçadas com a delícia do doce-de-leite e com a ambrosia.
Darás a tua carne para que outros seres tenham vida. Ajudarás assim a fomentar a paz e a concórdia em muitas famílias, graças ao teu sacrifício.
Serás um animal forte, capaz de puxar a canga atrelada ao arado. Por ti os campos serão revolvidos e abrirás um sulco profundo para que a semente penetre na terra e dê frutos.
Uma parte dos teus descendentes, os touros, terão uma força descomunal e serão temidos pelos outros animais, embora alguns pretendam disputar em força e habilidade com eles.
Dos teus chifres farão uns instrumentos musicais poderosos, os berrantes, que servirão para conduzir outros animais da tua raça por caminhos seguros.
Mas devo alertar-te para que não caias na tentação da vaidade e do orgulho, pois diversos povos, pelas tuas muitas qualidades, te valorizarão mais do que é devido: pensarão que és um animal sagrado, e alguns chegarão mesmo a fazer imagens de ouro tuas para adorar-te. Mas não te deixes enganar: lembra-te de que as tuas qualidades são dons que recebeste de Mim e recorda sempre que já foste um montão de areia do mar.
- Vó Zuza, a senhora pode explicar-me de que pessoas a vaca é figura?
- Miro, já lhe tinha dito que assim se perde a graça. Por que você não se arrisca a interpretar a história da Criação?
- É que tenho medo de errar na minha interpretação.
- Não tenha medo. Se você errar, eu o corrijo. Mas não quero dar a explicação de mão beijada.
- Então vou arriscar. A senhora disse que a vaca daria a sua carne como comida e que alimentaria abundantemente outros seres. Penso que essa passagem faz referência à Eucaristia. Pois Jesus deu a sua própria carne para alimento da nossa vida espiritual.
- Você arriscou mesmo e quase acertou! Mas a vaca não é figura de Jesus presente na Eucaristia, e sim o cordeiro. Tudo o que você disse se aplica perfeitamente ao cordeiro. Você nunca reparou no que diz o padre João Romão, na Missa, ao levantar a hóstia consagrada antes da comunhão?
- Acho que me lembro, sim. É verdade! Ele diz: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo".
- Então, Miro! Mas vamos deixar o cordeiro de lado, pois agora estamos falando da criação da vaca. Deixe-me explicar-lhe. Há dois alimentos principais para o nosso espírito, a Eucaristia, como você bem disse, e a palavra de Deus. Como diz a Bíblia, nem só de pão se alimenta o homem, mas também de toda a palavra que sai da boca de Deus.
Saciam a fome e sede de felicidade e de bem dos outros as pessoas que conhecem bem a palavra de Deus, a põem em prática e a ensinam aos outros. Assim fortalecem muitas vidas cristãs, para que se mantenham firmes contra as tentações, contra os maus costumes do ambiente em que vivem.
Conheço muitos sacerdotes que estudam a palavra de Deus e preparam bem as suas homilias de domingo, e assim alimentam as pessoas saciando a sua fome de verdade e de Deus. Alimentam as crianças com o leite espiritual tantas professoras de catecismo, que explicam pacientemente as principais verdades da fé, preparando os seus alunos para a primeira Comunhão e para a vida.
E a palavra de Deus, meditada na leitura do Evangelho, bem "ruminada" no estudo da doutrina da Igreja, torna-se saborosa como o melhor doce-de-leite do mundo, como a mais gostosa ambrosia. Quem a saboreia quer depois dá-la a conhecer, adoçando também a vida das pessoas que se encontram à sua volta.
- Então, vó Zuza, a vaca, com o alimento da sua carne, representa todas as pessoas que ensinam a palavra de Deus na igreja?
- Não só essas pessoas. Representa igualmente aquelas que sabem ensinar a palavra de Deus com a vida. Cristãos que abrem o seu coração com simplicidade aos colegas, e conseguem inflamá-los com o seu amor a Deus e aos outros, com os seus valores e ideais elevados, com o seu desejo de santidade. Eles não se encontram somente nas igrejas, mas em qualquer lugar deste mundo de Deus.
O bom exemplo de vida cristã de tantos pais em suas casas e de muitos colegas nas escolas e nos ambientes de trabalho é o arado que remove o coração de muitos, abrindo sulcos profundos, para que depois a palavra de Deus penetre a fundo e não encontre resistências.
- Mas o contrário também é verdade: não adianta apenas falar bonito, pois se a pessoa não vive o que fala, as outras pessoas não a ouvem e, além disso, pensam: quem é esse para me falar disso?
- É verdade. Mas não é preciso sermos perfeitos em um assunto para falar dele; basta que vejam que nos esforçamos por viver aquilo que ensinamos.
- Vó, e o que significa o berrante na história da criação da vaca?
- Significa os bons costumes cristãos adquiridos na infância, como por exemplo oferecer o dia a Deus, abençoar os alimentos, rezar alguma oração em família, montar o presépio na época de Natal... Com o tempo, esses costumes soam alto na memória e no coração das pessoas e as fazem retornar ao caminho seguro. Mais alguma pergunta sobre a criação da vaca?
- Tenho sim: por que Deus quis alertar a vaca sobre o perigo da vaidade?
- Ora, porque a vaidade é o grande perigo, a tentação mais forte das pessoas boas e que sabem muito, e que ensinam aos demais as verdades de Deus. Como muitas vezes ficam em evidência e recebem elogios do povo, podem atribuir a si mesmos o que é resultado principalmente da graça e da palavra de Deus nas suas vidas.
- Deve haver muitas vacas e bois por esse mundo de Deus, não é verdade?
- Muito menos do que você pensa, Miro!
- Mas os pais não se preocupam em ensinar aos filhos as verdades sobre Deus e o mundo? E não ensinam os seus filhos a comportar-se de forma cristã?
- Não pense que todos os pais por aí são como os seus. Sem dúvida que todos os pais querem o bem dos seus filhos, e lhes dizem que devem ser bons, que devem fazer o bem, mas não indicam como podem ser bons, nem o bem que deve ser feito. Às vezes, não falam porque não sabem, outras vezes porque não vivem o que dizem. E os filhos acabam ficando desorientados no mundo.
- E o que esses pais deveriam dizer aos seus filhos?
- O que os pais cristãos sempre disseram: que a fé é para ser vivida, que a nossa felicidade está em seguir os mandamentos de Deus, que devem levar uma vida de oração e de amizade com Deus, que é importante ir à Missa, que é preciso respeitar os mais velhos, que não se deve roubar, nem mentir, que não sejam consumistas, que perdoem aos demais, que sejam pessoas de paz, que vivam a castidade e se guardem para o casamento e sejam fiéis. Tudo isso e muito mais.
- Vó Zuza, se a senhora deixar, vou colocar a figura da vaca mais perto da figura do Menino Jesus, pois acho que ela merece.
A criação das ovelhas e cordeiros
Na criação dos cordeiros e ovelhas, Deus utilizou a neve mais branca das altas cordilheiras. Fez de uma só vez vários bonecos de neve, no formato do Cordeiro idealizado na sua mente. Depois de terminar os bonecos, deu um longo assobio. Mal o som chegou aos ouvidos das ovelhas e dos cordeiros, eles se tornaram seres viventes.
E Deus disse-lhes:
- Vós, cordeiros e ovelhas, sereis seres que vivem para os outros. A vossa felicidade estará em pensar nos outros antes de pensardes em vós mesmos. Tereis o saudável costume de estar sempre pendentes dos outros cordeiros e ovelhas.
Além da pele, tereis uma cobertura de lã, macia, sem qualquer aspereza. Sereis incapazes de machucar algum outro ser. Por vossa lã, muitos já não sentirão mais frio no inverno e poderão vestir-se de forma elegante.
Nenhum animal será capaz de uma generosidade como a vossa: sereis capazes de dar a vida pelos outros, amorosa e silenciosamente.
E o mais importante: um dia, alguns dos vossos descendentes estarão na gruta de Belém, e roubarão o coração do meu amado Filho desde aquele momento em que ainda é um bebê.
- Vó Zuza, a senhora deixa-me tentar descobrir de que tipo de pessoas os cordeiros e ovelhas são figura?
- Claro que sim, Miro. Gostaria de conhecer a sua interpretação.
- Pois bem, elas tornaram-se seres vivos quando ouviram o assobio de Deus. Sabemos que Jesus diz de si mesmo que é o Bom Pastor que guia as suas ovelhas. Logo, as ovelhas e cordeiros são figura de todos os homens que ouvem o assobio de Jesus e o reconhecem e o seguem.
- Com certeza, Miro, mas não basta. Como é que as pessoas se fazem figura das ovelhas que seguem Cristo?
- Penso que é quando levam uma vida sacrificada.
- Muito bem, é isso mesmo! Mas ser sacrificado não basta para ser ovelha! Pois há muitas pessoas que se sacrificam na vida para ter fama, sucesso, dinheiro, beleza física, até mesmo para fazer coisas erradas. Essas pessoas não são ovelhas.
- É verdade. Então, deixe-me completar a minha resposta. São ovelhas aquelas pessoas que sabem sacrificar-se não movidas por interesses pessoais, mas por amor a Deus e por amor aos outros.
- E não é que você está ficando sabichão?!
- Vó Zuza, não me trate como criança! Sabe quantos anos tenho? Quinze!
- Puxa, com quinze anos eu comecei a namorar o seu avô e com dezenove nos casamos!...
Mas voltemos à explicação da história. Foram cordeiros e ovelhas tantos mártires do cristianismo que derramaram o seu sangue e deram a vida por Deus; e também o são aquelas pessoas que se sacrificam por amor a Deus e aos outros dando a sua vida gota a gota, dia a dia. São elas que seguem mais de perto Jesus Cristo, que é o Bom Pastor e ao mesmo tempo o Cordeiro, que deu a sua vida silenciosamente por todos nós. Mas ainda há outras pessoas que são ovelhas. Quem você acha que são?
- Acho que... vou deixar a senhora explicar.
- Pois bem, as ovelhas também representam as pessoas que têm um coração manso, que não se irritam à toa, que renunciaram à cólera nas suas vidas, que abandonaram o furor e a raiva, e por isso vivem alegres e com uma paz imensa na alma. Essas pessoas normalmente criam um ambiente muito agradável ao seu redor, um ambiente de descontração e de carinho, fundamental para que os outros se sintam bem.
A lã da ovelha representa a capacidade de lidar com pessoas de temperamento mais agressivo. Como diz um antigo ditado: "Nada pára melhor a força de uma bala do que a lã". Por tudo isto, as ovelhas aquecem o ambiente, dão calor e aconchego aos outros.
- Como fazem falta, hoje em dia, ovelhas no nosso mundo, né, vó?! Eu que não tenho muitos anos, nem muita experiência, percebo como as pessoas por aí vivem irritadas, tratam os outros de maus modos e com grosseria. E acabam machucando as pessoas com quem se relacionam, até as que mais amam.
- Sim. E como essas pessoas "não aceitam levar desaforo para casa", e querem devolver todas as ofensas que sofreram, acabam passando mal e sofrem terrivelmente.
Às vezes, é por tão pouca coisa!: um pequeno atraso do ônibus, uma explicação mal dada de uma professora, ou um pequeno percalço na hora do café da manhã, quando uma criancinha derruba o leite. Basta qualquer dessas coisas para que o seu dia já azede. E vão carregar o seu mau humor por horas e horas, senão por dias inteiros. Além de que criam um clima insuportável à sua volta.
Miro, por tudo isto que vimos, as ovelhas e os cordeiros merecem estar bem perto de Jesus no presépio, pois são como Ele: mansos e humildes de coração.
O casal de pombos
- Vó Zuza, posso fazer uma pergunta sobre outro animal do presépio?
- Mas já não há mais animal nenhum ali!
- No da senhora, há. Olhe, ali tem um casal de pombinhos. Não é à toa, né, vó?!
- Miro, você promete não contar a ninguém?
- Prometo.
- Pois não é à toa, não. A pomba é figura das pessoas simples, dos pequeninos, que têm a alegria de entender as revelações de Deus. E, além disso, o próprio Espírito Santo escolheu uma pomba para o representar. Por tudo isto, eu gostaria de ser uma pombinha de Deus. E sem a companhia do seu avô eu não fico.