Trabalho de Deus e para Deus


Parte essencial da mensagem do Opus Dei é a de recordar que todos os cristãos podem e devem aspirar à santidade de vida.

São Josemaria comentava: Desde 1928 tenho pregado que a santidade não é coisa para privilegiados, que podem ser divinos todos os caminhos da terra, porque o eixo da espiritualidade específica do Opus Dei é a santificação do trabalho cotidiano. (Questões atuais do Cristianismo, n. 34)

O Opus Dei, cujo nome significa Obra de Deus ou Trabalho de Deus, recupera o valor mais profundo, o significado cristão do trabalho.

São Josemaria dizia: "o trabalho de cada qual - essa atividade que ocupa as nossas jornadas e energias - há de ser uma oferenda digna aos olhos do Criador, ... trabalho de Deus e para Deus" (Amigos de Deus, n.55)

Todos os homens trabalham e podem tornar o seu trabalho algo santo, santificante e santificador, como veremos nesse artigo.

O trabalho é tão importante para viver o espírito do Opus Dei que o seu fundador dizia que quem não trabalha ou não estuda bem, não poderá entender o espírito do Opus Dei, se não muda. (cfr. Caminho, n.334)

Em outra ocasião dizia: "se algum de vós não amasse o trabalho - aquele que lhe toca! -, ... se não tivesse uma vocação profissional, jamais chegaria a calar no cerne sobrenatural da doutrina que este sacerdote lhe expõe, precisamente porque lhe faltaria uma condição indispensável: a de ser um trabalhador".(Amigos de Deus, n.58)

Nesse artigo, o autor recolhe algumas idéias que aprendeu nos anos que recebe a formação nos centros do Opus Dei e nos escritos do seu fundador.

O rendimento do trabalho

Quando numa conversa o tema é trabalho ou estudo, normalmente se fala sobre o seu rendimento. Às vezes ouvimos os seguintes comentários:

- "O meu estudo não está rendendo, não anda para frente, estou com a matéria atrasada, está acumulando".

- "Esse trabalho novo vai render bastante". Pode ser que quem faça esse comentário esteja pensando: "vai dar muito dinheiro".

Para saber se um trabalho ou estudo está rendendo ou não, depende em boa parte do critério que utilizamos para avaliar o trabalho; da visão que temos do trabalho em si.


Quem vê o trabalho como um meio para desenvolver os seus talentos e seus dotes intelectuais, para adquirir conhecimento, vai achar que o trabalho está rendendo se está aprendendo muito e profundamente. Nesse sentido, ouvimos comentários como esses: "o estágio está sendo muito bom porque estou aprendendo muito"; ou "o estágio não está bom, pois já aprendi tudo que tinha para aprender e estou estacionado".

Quem vê o trabalho como uma forma de ganhar dinheiro e de sustentar a si mesmo e a sua família, vai achar que está rendendo se o pagam bem, se consegue fazer frente aos gastos familiares, se consegue ter alguma reserva financeira para alguma emergência.

Há quem veja o trabalho como o modo de ajudar os outros e de servir de uma forma qualificada os demais. E vai achar que o trabalho está rendendo se está conseguindo realizar um trabalho de forma que seja satisfatória para os outros, se presta um serviço qualificado aos demais, se ajuda a promover o bem-comum na sociedade.

Claro que esses critérios não são exclusivos. O bom rendimento pode resultar da combinação desses vários fatores: desenvolvimento pessoal, boa remuneração, possibilidade de realizar um serviço qualificado aos outros; e poderíamos achar ainda muitos outros critérios: como a cooperação entre os colegas de trabalho, etc.

Todos esses critérios juntos ajudam a ter uma visão mais abrangente e positiva do trabalho.

Porém, não faltam hoje pessoas que têm uma visão pessimista ou reduzida do trabalho.

Por exemplo, um rapaz em certa ocasião perguntou ao fundador do Opus Dei: "Que outra mortificação (sacrifício) podemos oferecer a Deus além de estudar?"

Esse rapaz via o estudo e o trabalho como um sacrifício que tinha que ser feito, do qual não dá para gente escapar. Uma pessoa com essa mentalidade facilmente procurará se sacrificar o menos possível, ou tentará dar alguma escapadinha das atividades mais custosas e desagradáveis, ou no melhor dos casos se conformará em oferecer muitos sacrifícios "inevitáveis" a Deus.

Uma outra vez, um rapaz que freqüentava um centro do Opus Dei, perguntou a um colega da faculdade, católico, como ele via o trabalho, o estudo, e levou o maior susto, quando seu colega lhe respondeu: "como aquilo que é: um castigo". E ainda para sustentar a sua opinião, esse rapaz utilizou um argumento da Bíblia: "Deus disse a Adão e Eva depois que pecaram, e comeram do fruto proibido: ... tirarás da terra o seu sustento com trabalhos penosos, todos os dias da tua vida"; e também: "comerás o pão com o suor do seu rosto". Viu o trabalho é um castigo de Deus por causa dos nossos pecados.

Mas essa não é a visão correta e cristã do trabalho.

O trabalho não é um sacrifício, no sentido de algo apenas penoso e muito menos um castigo, ainda que custe sacrifício.

O trabalho acompanha inevitavelmente a vida do homem sobre a terra. Com ele aparecem o esforço, a fadiga, o cansaço, manifestações da dor e da luta que fazem parte da nossa existência humana atual, e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção. Mas o trabalho em si não é uma pena, nem uma maldição ou um castigo: aqueles que falam assim não leram bem a Sagrada Escritura. (É Cristo que passa, n. 47)

Aquele rapaz, que perguntou ao seu colega como via o estudo e o trabalho, conhecia os ensinamentos de São Josemaria. Já tinha lido e lembrava-se que o fundador do Opus Dei dizia em uma homilia que está escrito no Gênesis que o homem foi feito para trabalhar. E foi procurar a citação para mostrar a seu amigo:

Desde o começo da sua criação, o homem teve que trabalhar. Não sou eu que o invento: basta abrir a Sagrada Bíblia nas primeiras páginas para ler que - antes de que o pecado e, como conseqüência dessa ofensa, a morte e as penalidades e misérias entrassem na humanidade (Cfr. Rom V, 12) - Deus formou Adão com o barro da terra e criou para ele e para a sua descendência este mundo tão belo, ut operaretur et custodiret illum (Gen II, 15), para que o trabalhasse e guardasse. (Amigos de Deus, n.57)

Podemos dizer que assim como o passarinho foi feito para cantar e voar, o peixe para nadar, o homem foi criado para trabalhar.

Deus colocou o homem no jardim do Éden para que o cultivasse e guardasse, para que o trabalhasse.

Também disse: "Sujeitai a terra... Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra". E este domínio exige trabalho.

Aqui nós encontramos o primeiro sentido cristão do trabalho: cooperar com Deus na criação.

Cooperar com Deus na Criação.

O homem foi chamado por Deus com sua inteligência ordenadora, com sua criatividade a cooperar, co-laborar (laborar com, trabalhar) com Deus na obra da Criação.

E hoje são milhares de iniciativas do homem, que manifestam a glória do Criador e que não estavam presentes na natureza, em seu estado original. Inovações e invenções que foram trabalhadas a partir de matérias primas da natureza: como a eletricidade; os instrumentos de trabalho e os instrumentos musicais; novos medicamentos; aparelhos elétricos e eletrônicos, como a televisão e o computador; veículos de locomoção, como os automóveis, aviões, os navios e submarinos. Sem falar em tantas receitas gostosas da culinária, que foram "criadas", inventadas pelo homem.

O Homem também manifesta a perfeição de Deus, da sua criação, através do seu trabalho. Dá glória a Deus com o seu trabalho, que desenvolve dons e potencialidades pessoais que o Criador lhe deu gratuitamente e realizar uma missão que Deus lhe possibilita e lhe confia.

Trabalhar para um cristão não é apenas buscar a sua glória pessoal, a sua realização; mas também manifestar a bondade e perfeição de Deus criador, através das obras das suas mãos.


Valor redentor do trabalho

Mas o trabalho adquire ainda um valor mais profundo, quando Jesus, o Filho de Deus feito homem, vem ao mundo para redimir-nos do pecado, para nos salvar, e passa a maior parte da sua vida trabalhando - cerca de 30 anos - tanto é assim que quando começa a pregar é reconhecido como o "Filho do carpinteiro".

Jesus, crescendo e vivendo como qualquer um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida comum e de cada dia, tem um sentido divino.

Por muito que tenhamos considerado estas verdades, devemos encher-nos sempre de admiração ao pensar nos trinta anos de obscuridade que constituem a maior parte da vida de Jesus entre seus irmãos, os homens.

Anos de sombra, mas, para nós, claros como a luz do Sol.

Mais: resplendor que ilumina os nossos dias e que lhes dá uma autêntica projeção, pois somos cristãos comuns, com uma vida vulgar, igual à de tantos milhões de pessoas nos mais diversos lugares do mundo.

Assim viveu Jesus durante seis lustros (30 anos): era fabri filius (Mt XIII, 55), o filho do carpinteiro.

Virão depois os três anos de vida pública, com o clamor das multidões. E as pessoas surpreendem-se: Quem é este? Onde aprendeu tantas coisas? Pois a sua vida tinha sido a vida comum do povo da sua terra.

Era o faber, filius Mariae (Mc 6, 3), o carpinteiro, filho de Maria.

E era Deus; e estava realizando a redenção do gênero humano; e estava a atrair a Si todas as coisas (Jó 12, 32).

O fundador do Opus Dei, S. Josemaría Escrivá, compreendeu que Jesus nos redimiu, nos salvou, não só quando morreu na cruz, mas também quando trabalhou na oficina de José.

Deus se fez homem e trabalhou, mostrando o significado mais profundo que pode alcançar o estudo e o trabalho. Assumiu essas atividades com seu cansaço, com o esforço para realizá-las com perfeição humana.

Na oficina de José

Gostaria de aprofundar sobre o trabalho de Jesus Cristo pensando na sua atividade na oficina de José. Imaginemos como seria o trabalho de Jesus com José, desde quando Ele era pequeno, até quando Ele assume o negócio de José.

Jesus foi crescendo, foi deixando de ser criança e foi chegando o momento de trabalhar com aquele a quem Deus Deus confiou a missão de fazer as vezes de pai na terra. Podia já prestar algumas pequenas ajudas, alguns pequenos encargos.


Provavelmente José lhe pediria ajuda em pequenas tarefas:

- "Pode-me passar o martelo?"

- "Junte aqueles troços de madeira que sobraram e leve para tua mãe, para que possa utilizar de lenha para o fogão".

Quando o trabalho se prolongava podemos imaginar Jesus com uma lanterna iluminando o trabalho de José". Enquanto atentamente vai aprendendo como se trabalha.


Chega o momento em que José começa deixar Jesus utilizar as ferramentas, explicando-lhe tudo detalhadamente. Tinha plena consciência a quem ele ensinava. Ensinava-o pacientemente. Sua mão de adulto cobria a mão de Jesus, um jovem, um adolescente, e faziam juntos o trabalho. Jesus aprende a polir, encaixar peças, cortar madeira. E das mãos de quem criou o mundo começa a sair objetos: bancos, mesas, arados e uma grande quantidade de objetos.

E quando os clientes chegavam na oficina de José para levar os arados, os jugos, as arcas..., que S. José e Jesus tinham feito, não sabiam o que levavam. Notavam que tudo estava bem feito, bem acabado, mas não percebiam que eram verdadeiras relíquias. Hoje em dia se pagaria milhões por qualquer um destes objetos, feitos por José e Jesus.

Mas esse objetos não têm apenas um grande valor financeiro, valem a glória de Deus e a nossa redenção, a nossa salvação, pois Jesus nos redimiu não só na Cruz, mas também no seu trabalho realizado com perfeição. Jesus podia dizer do seu trabalho, o que disse na Cruz: "Tudo está consumado", plenificado, feito com perfeição.

No trabalho, Jesus também "deu o sangue": como a maioria dos bons trabalhadores, acabava o dia bem cansado, necessitando de um merecido repouso.

Refletir sobre o trabalho de Jesus na oficina de José, leva-nos a considerar que o nosso trabalho e o nosso estudo podem ser semelhantes ao de Cristo, um trabalho humano e divino, bem acabado e oferecido a Deus: um trabalho de Deus, Opus Dei.

Como tornar nosso trabalho algo divino?

S. Josemaría Escrivá resumia o que era necessário para transformar o nosso trabalho num trabalho divino em três condições: santificar o trabalho, santificar-se no trabalho e santificar os outros com o trabalho.(cfr. É Cristo que passa, n. 122)

(Nesse artigo consideraremos apenas o que significa santificar o trabalho. Em outro artigo consideraremos as demais condições: santificar-se no trabalho e santificar os outros com o trabalho)

Para santificar o trabalho é preciso fazê-lo bem feito, fazê-lo por amor a Deus, a ponto de transformá-lo em uma oferenda muito agradável a Deus e estabelecer um diálogo nosso com Deus.

Um trabalho bem feito

Um trabalho ou um estudo bem feito é aquele que é feito com profissionalismo, com competência, bem acabado, como seria o trabalho de Jesus.

Não dá para imaginar o trabalho de Jesus Cristo como um trabalho sonolento; cheio de distrações; desordenado; feito lentamente, com moleza, cochilando; evitando o que custa fazer; sempre adiando o que é mais chato. Não! Jesus Cristo não trabalharia assim!

Um cristão que segue o exemplo de Cristo, deve ser conhecido como: uma pessoa que estuda e trabalha bem; que se empenha de verdade; que "não tira o ombro"; que é ágil no momento de começar e terminar o estudo e o trabalho, bem como na hora de mudar de atividades; que enfrenta as tarefas difíceis, que procura realizar logo aquilo que custa; que evita interrupções desnecessárias; que corta as conversas fora de hora; que não desiste na metade do caminho, que termina bem as coisas.


São Josemaria Escrivá procurava "colocar as últimas pedras" em tudo que fazia e assim ensinou aos fiéis do Opus Dei.

E as pessoas que querem viver o espírito do Opus Dei procuram fazer tudo "no capricho". Se são estudantes, procuram ter a matéria em dia e estudar toda a matéria que vai cair na prova; se são donas de casa, procuram deixar a casa bem arrumada, com alguns detalhes de decoração; se são cozinheiras, procuram caprichar no preparo e na apresentação dos pratos e, além disso, procuram deixar a cozinha limpa; etc.


Permita-me contar uma estória que achei bastante ilustrativa:

Um gerente de uma empresa, ao receber um relatório de um funcionário, chamou-o depois de uns minutos, devolveu-lhe o relatório e disse-lhe: "Francamente, isto é o melhor que você pode fazer?". E envergonhado, o funcionário pegou o relatório e o refez. E essa mesma cena repetiu-se, mais uma vez.

Na terceira vez, o funcionário caprichou no conteúdo e melhorou muitíssimo a sua apresentação. No momento da entrega do relatório, o gerente de novo lhe perguntou: Você tem certeza de que isso é o melhor que você pode fazer?

O funcionário enfrentando o gerente, disse: "É, sim, o melhor que eu posso fazer".

E o gerente lhe respondeu: "então, agora eu vou ler".

Pergunto-me: E por que o funcionário não fez o melhor que podia já da primeira vez?

Fazer o melhor que se pode, dentro das limitações de tempo e de capacidade, é fazer bem feito.

Fazer por amor a Deus

Quando perguntavam ao Fundador do Opus Dei, que trabalho era mais importante, e colocavam alguns exemplos, como: de um governador, ou de uma dona de casa? Ele sempre dizia que dependia do amor a Deus que cada pessoa colocava no seu trabalho e do grau de perfeição que a pessoa adquiria ao realizá-lo. (cfr. Questões atuais do Cristianismo, n.109)

Segundo este critério o trabalho mais importante na terra é o de Jesus, e depois o de Nossa Senhora e de S. José. Como S. José trabalharia, com Jesus ao seu lado, sabendo que todo o seu trabalho era diretamente para Jesus: para alimentá-lo, vesti-lo, e para ensiná-lo a trabalhar?!

Para trabalhar por amor a Deus é preciso trabalhar na sua presença, sabendo que Deus está atento àquele estudo, àquele trabalho, que está fazendo companhia a quem o faz, e até mesmo que vai se beneficiar diretamente do resultado do trabalho realizado.

São Josemaria dizia, por exemplo, às moças que trabalhavam em casa de família, que deveriam trabalhar como se a Sagrada Família fosse quem se beneficiasse diretamente do seu afazer.

E, além disso, trabalhar na presença de Deus leva-nos a trabalhar com mais ânimo e melhor, com outra motivação.


Lembro-me de uns garotos que lavavam o carro do pai aos sábados. Quando faziam sozinhos faziam com má vontade. Mas quando faziam com o próprio pai, faziam-no com alegria.

Trabalhar ou estudar na presença do nosso Pai Deus nos anima a enfrentar as dificuldades e o cansaço próprio do trabalho.

Como ajuda para trabalhar na presença de Deus, podemos colocar por exemplo, alguma recordação, um lembrete de Deus: uma foto de Nossa Senhora ou um crucifixo, na nossa mesa de trabalho.


São Josemaria conta a história de um estudante das áreas biológicas que tinha como lembrete da presença de Deus uma cruz sem Crucificado:

"Ao levantar a vista do microscópio, o olhar vai tropeçar na Cruz negra e vazia. Esta Cruz sem Crucificado é um símbolo. Tem um sentido que os outros não entenderão. E aquele que, cansado, estava a ponto de abandonar a tarefa, aproxima de novo os olhos da ocular e continua trabalhando: porque a Cruz solitária está pedindo uns ombros que carreguem com ela." (Cfr Caminho, n.277) Até o fim, até poder dizer, "tudo está consumado".

Transformar o trabalho e o estudo em oração

S. Josemaria também ensinava que "para um apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração" (Caminho, n.335). E se é assim, poderíamos, portanto, começar o trabalho da mesma maneira que São Josemaria começava as suas meditações, substituindo a palavra "oração" por "estudo" ou "trabalho".

Meu Senhor e Meu Deus creio firmemente que estás aqui... que me vês e me ouves...
Peço graças para fazer com fruto este tempo de estudo.


A condição básica para transformar o trabalho em oração é que nos dirijamos a Deus, que ofereçamos o trabalho a Deus, antes de começar a fazê-lo, de tal modo, que o desejo de agradar a Deus informe efetivamente o nosso modo de atuar; que purifiquemos a nossa intenção de todos os objetivos egoístas: da vaidade, da ambição, dos caprichos.

Mas é preciso mais! Do mesmo modo que na oração é necessário recolher-nos e elevar a alma a Deus, é preciso que aprendamos a recolher-nos através do trabalho e não nos dispersemos, que coloquemos a cabeça e concentremos a imaginação na tarefa que realizamos. Quando nos deixamos levar pela sofreguidão, pelo desejo de acabar logo, de despachar, estas atitudes normalmente nos dispersam e nos afastam de Deus.


Podemos ouvir a voz de Deus que nos fala através das circunstâncias do trabalho. Diz-nos "segue-me" de muitas maneiras e convida-nos a participar do trabalho redentor: "arruma essa mesa"; "procura entender bem esse ponto que está confuso"; "resolve esse problema".

Podemos falar com Deus através da nossa atividade: que até o nosso comportamento, o nosso gesto seja expressivo, como daquela esposa que dobrava as meias do marido com todo carinho e fazia dessa atividade quase "um ritual"; ou daquela mãe que passava a ferro a blusa do filho, com tal expressividade e carinho que dava a impressão, para quem a via, de que acariciava o filho passando as suas camisas.

Se procedermos assim, o nosso estudo ou trabalho será oração, tarefa conjunta de Deus e nós, atividade através da qual se estabelece entre ambos uma profunda sintonia, um diálogo sem palavras, mas expressivo, uma verdadeira oração.

Flávio Sampaio de Paiva

 

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